
Bibliografia obrigatória
BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
DOS SANTOS, Pedro Victor. No labirinto do abandono: uma etnografia das práticas de
uma equipe de saúde mental em um manicômio judiciário do estado do Rio de Janeiro.
Dissertação (Mestrado em Justiça e Segurança) – Instituto de Estudos Comparados em
Administração de Conflitos, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2025.
FREUD, Sigmund. Caminhos para terapia psicanalítica [1918]. In: __________. Fundamentos da clínica psicanalítica. Tradução de Claudia Dornbusch. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. p. 138-148.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Ed. Standard (E. Imago). Rio de Janeiro: Imago, vol. XXI.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Organizado por Flávia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 2020.
RIBEIRO, Mariana & BISPO, Fábio. (2022). O racismo e a recusa da transferência - resistências do psicanalista. In: Flávia Gaze Bonfim. (Org.). Leituras psicanalíticas sobre os desafios da atualidade. 1ªed.Curitiba - PR: Editora Bagai, 2022.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: Ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.
Bibliografia complementar
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do Eu. Ed. Standard (Ed. Imago) vol. XV, capítulo 7. 1921.
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção e política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.
SOUZA, Neusa Santos. O estrangeiro: nossa condição. O estrangeiro. São Paulo: Escuta, 1998, pp 155- 163.
QUEIROZ, A. S. A questão da identidade: Uma articulação entre Psicanálise e Estudos Decoloniais. In: Estud. pesquisa. psicologia, Rio de Janeiro, v. 23. UERJ, 2023.
Uma interrogação constantemente erguida entre os praticantes da psicanálise gira em torno de qual seria conduta clínica “adequada” a ser adotada quando um analisante narra uma situação em que sofreu algum tipo de violência intrinsicamente ligada a seus marcadores sociais. Na psicanálise, costumamos dizer e ouvir que “cada caso é um caso”. E sim, de fato, a nossa técnica, não universalizante, é conduzida a partir da singularidade do sujeito. Não é diferente quando se trata da questão proposta acima. No entanto, a psicanálise deve manter em seu horizonte, na contramão de posições conservadoras, um compromisso ético-político, logo, sem cair em um “subjetivismo” radical. Isso envolve o reconhecimento e consideração da mera existência e do impacto mortificante das injustiças, segregações e vulnerabilidades sociais na vida psíquica de quem as sofre.
Assim, cabe ao campo psicanalítico, sem a mínima necessidade de desconsiderar a subjetividade na escuta clínica, promover uma reflexividade e uma discussão crítica sobre como a prática vem encarando e manejando a “questão social” no divã. Essa é a proposta deste seminário, isto é, produzir um debate incômodo a respeito da forma como o processo analítico tem escutado as trajetórias de sujeitos racializados, institucionalizados e vulnerabilizados.
O desafio para a prática psicanalítica aqui é, em primeiro lugar, reconhecer as vivências coletivas permeadas de subjugação, dominação e violências para, enfim, ser capaz de individualizar as experiências, ou seja, oferecer a escuta, valorizar e dar um lugar privilegiado à expressão e elaboração das questões sociais dentro da história do sujeito.
Nesse sentido, o seminário tem como proposição articular conceitos clínicos e metapsicológicos com questões ligadas a sofrimentos socialmente produzidos, ou seja, produzir uma reflexão sobre como tais elementos, como transferência e resistência, por exemplo, aparecem na prática psicanalítica quando o “social” emerge.
Serão realizados oito encontros quinzenais ao longo do semestre, com duração de duas horas cada. Para além do debate teórico, pretende-se abrir espaço para a discussão horizontal de vinhetas e casos clínicos, favorecendo a troca de experiências, impasses e desafios de manejo entre os participantes.
O seminário será dividido em dois eixos: racismo e precariedade social. Antes dele, no primeiro encontro, vamos comentar o texto clássico de Freud (1930), “Mal-estar na Cultura”. No eixo inicial, introduziremos o debate acerca do racismo no contexto brasileiro através de Lélia Gonzalez (2020) para depois nos aprofundarmos no diálogo da psicanálise com o tema através de Neusa dos Santos (1983). Por fim, a discussão se volta para um artigo clínico que interroga a posição do analista frente a questão racial, problematizando a noção de neutralidade e a ocultação do racismo na clínica.
No segundo eixo, iniciamos com Judith Butler (2015) que traz a categoria “vidas precárias” para pensar como determinadas existências são relegadas ao esquecimento e abandono social. Em diálogo, trago um trecho de minha dissertação (DOS SANTOS, 2025) sobre um manicômio judiciário, debatendo como o campo psicanalítico se apresenta e ajusta sua técnica dentro de uma instituição, além de demonstrar como se configura um manejo possível para formas de sofrimentos que extrapolam a responsabilização subjetiva estrita. Por fim, retomemos a Freud (2021) para debater a acessibilidade da clínica e suas implicações políticas.